Quando o corpo grita o que a mente cala: a história de um burnout que poderia ter sido evitado
- Jailson Frazão
- há 5 dias
- 3 min de leitura
Quando o corpo grita o que a mente cala: a história de um burnout que poderia ter sido evitado
Rafael tinha 38 anos e uma vida que, no papel, parecia exatamente o que ele sempre quis. Gerente de contas em uma multinacional de tecnologia, casado, pai de duas meninas pequenas, o tipo de currículo que os pais mostram com orgulho para os vizinhos. Ele chegava ao escritório antes das oito, era o último a sair do grupo do WhatsApp de trabalho todas as noites e vivia repetindo para si mesmo uma frase que soava mais como ordem do que como ânimo: "só mais esse trimestre".
Fazia meses que Rafael não dormia direito. As dores de cabeça viraram rotina, o apetite sumiu, e a irritação com a esposa e as filhas aumentava sem motivo aparente. Ele sabia — em algum lugar — que algo estava errado. Mas parar significava, na cabeça dele, admitir fraqueza. E fraqueza não fazia parte do personagem que ele havia construído desde muito jovem: o filho que dava conta de tudo, o que nunca decepcionava.
O colapso veio num dia comum, no meio de uma reunião. Rafael sentiu o coração disparar, as mãos formigarem, a sala girar. Foi levado às pressas para o hospital achando que era um infarto. Os exames vieram normais. O diagnóstico, semanas depois, foi outro: síndrome de burnout, com um quadro de ansiedade generalizada associado. Ficou afastado do trabalho por quase quatro meses. O casamento, que já vinha sendo sustentado no automático, entrou em crise. E a pergunta que mais o assombrava não era "como isso aconteceu", mas "por que eu não consegui ver antes".
A história de Rafael não é rara. Os afastamentos por burnout no Brasil dispararam nos últimos anos, segundo dados do Ministério da Previdência Social, e o país figura entre os que mais registram casos da síndrome no mundo, atrás apenas do Japão, conforme levantamentos internacionais. Desde 2026, a atualização da norma trabalhista NR-1 passou inclusive a obrigar empresas a mapear riscos psicossociais como sobrecarga e metas abusivas — um reconhecimento, tardio, de que o problema nunca foi só individual.
O que a psicanálise já sabia sobre essa história
Do ponto de vista clínico, o burnout costuma ser tratado como resultado de excesso de trabalho. A psicanálise olha para uma camada mais funda: o que leva alguém a ignorar, durante meses, os próprios sinais de exaustão?
Freud descreveu o Ideal do Eu como aquela imagem interna de quem "deveríamos ser" — construída ainda na infância, a partir do que garantiu amor, reconhecimento e aprovação. Para muita gente, esse ideal se organiza em torno da produtividade e do desempenho: ser útil, entregar, nunca decepcionar. O problema é que esse ideal é, por definição, inalcançável — e a distância entre quem a pessoa é e quem ela "deveria ser" produz uma cobrança silenciosa e constante, uma espécie de raiva voltada contra si mesma quando o corpo já não aguenta o ritmo.
No caso de Rafael, o "só mais esse trimestre" não era sobre a empresa — era a repetição de um roteiro muito mais antigo, aprendido muito antes do primeiro emprego: o de que seu valor dependia do que ele entregava, não de quem ele era. Esse tipo de padrão raramente é visível para quem está dentro dele. Ele não aparece como pensamento consciente; aparece como corpo cansado, insônia, irritação — sintomas que a pessoa tenta calar em vez de escutar.
Como um processo analítico poderia ter mudado esse desfecho
Um processo psicanalítico não previne burnout prometendo menos trabalho ou mais férias — isso qualquer médico do trabalho recomenda. O que ele oferece é a possibilidade de escutar, com tempo e continuidade, os padrões inconscientes que levam alguém a se colocar nesse lugar de exigência sem fim, muito antes de o corpo precisar dar um basta.
Nas sessões, esse tipo de história geralmente começa a aparecer bem antes do colapso: no cansaço que a pessoa despreza, na dificuldade de dizer não, na sensação de estar sempre devendo algo a alguém. É justamente aí que a análise trabalha — não apagando a ambição ou o compromisso com o trabalho, mas ajudando o sujeito a reconhecer de onde vêm essas exigências internas e a construir uma relação menos automática, menos punitiva, com o próprio desejo e os próprios limites.
Rafael só chegou ao consultório depois do afastamento. Muitos pacientes chegam assim — quando o corpo já tomou a decisão que a mente vinha adiando. A pergunta que fica é simples, e é a mesma que motiva este texto: quantas dessas histórias poderiam ter um desfecho diferente se a escuta viesse antes, e não depois?
Se você reconhece esse padrão em si mesmo ou em alguém próximo, uma conversa inicial pode ser o primeiro passo. Atendimento particular, com sigilo profissional garantido.



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